Maresias

23 de Maio de 2009

Da ausência. Do vazio. Das paredes que gritam o que insistimos em calar. Ou não conseguimos dizer. Do silêncio. Da sala despida. Da mesa posta com um prato a menos, apesar do lugar eterno. Dos passos que não se sentem no corredor pela manhã. Do cheiro a compota que se evaporou no nunca mais, mesmo que se venham a fazer todas as compotas do mundo. Da cadeira que espera. Do jardim que perdeu a cor para o mistério da morte. Da voz que não se ouve, mas que ecoa. Do armário e da cómoda intactos, intocados. Das pulseiras, colares e anéis que persistem. Dos novelos e agulhas imóveis, como instalações indecifráveis em museus modernos. Das camisas que já não são lavadas à mão, demorada e cuidadosamente. Dos conselhos que não se esquecem, mesmo que não sejam seguidos à risca. Das histórias que sobreviverão ao tempo. Dos Natais, Páscoas, Carnavais , aniversários e demais comemorações que perderam a magia e o brilho. Do leite creme ao Domingo, cujo sabor foi embora sem pedir licença. Dos almoços e jantares demorados, em família, onde já faltam cada vez mais. Das tardes na piscina, dos lanches com scones e limonada. Dos piqueniques à beira-rio. Dos dias longos de praia e refresco de café com limão. Das viagens de carro. Das compras no Porto. Das idas a Alcañices comprar flores, com direito a paragem obrigatória nas Paquitas e no Fidel. Das sopas de tomate. Dos almoços no alpendre. Dos passeios a pé. Das novelas e filmes revistos e comentados vezes sem conta. Do jornal e das revistas lidos à noite, na cama. Das jardinagens e dos banhos de mangueira. Das tardes enfiados todos juntos na cama, onde se esqueciam as doenças. Das revisões antes dos testes. Do dinheiro dado às escondidas, para os meus alfinetes. Das compras de Natal à última hora. Das rabanadas quentinhas. Dos abraços, dos beijinhos e da forma de me chamar Micoquinhas. Da saudade. De um tempo que não volta. Nunca mais.

22 de Abril de 2009


                                                                                                              Berlin, Abril de 2009

 

Olá miúda,

 

Berlin nesta época do ano ainda parece um postal natalício.

Hoje a cidade acordou coberta por uma geada branca, apenas pincelada pelo colorido das malhas polares de Inverno e dos lenços das raparigas.

De manhã, ao caminhar aqui pelo quarteirão, pude ver-te em cada rosto, em cada gesto, em cada sorriso. Ao entrar na padaria, senti-te no cheirinho a pão quente acabado de fazer e regressei por momentos a casa, àquela tarde em que me serviste scones com compota ao lanche, enquanto te enroscavas a mim no sofá... “you still pull me home”, como diz a letra daquela música que tu tantas gostas.

Trago-te sempre num nó na garganta, num aperto no peito, daqueles que apenas se sentem pelas pessoas que nos são essenciais. Quando me sinto mais , regresso a ti em pensamento, à nossa caixinha das memórias e por momentos tenho-nos aí de novo, tu a olhar para mim com esse olhar de mar, onde sempre me perco e me encontro.

Fazes-me falta, assim como me faz falta esse teu olhar de menina sobre o mundo que te rodeia. Várias vezes por dia dou por mim a desejar ter-te aqui, para poderes ver o que eu vejo, ou a mesma coisa sob um prisma diferente, como sempre vês, e depois ficarmos horas a falar sobre isso.

Tenho saudades de passear contigo por Lisboa, de dar aquela volta só nossa, o “passeio dos alegres”, como gostas de lhe chamar. Sinto falta de estar contigo nesses sítios e de quem nos tornamos quando nos esquecemos do tempo e das obrigações da vida nesses lugares.

Posso pedir-te uma coisa, miúda? Gostava de ter comigo recordações desses recantos tão nossos, não como eu me lembro deles, mas como tu os vês. Que tal pegares na tua máquina e me enviares algumas fotografias desses sítios, para eu juntar ao álbum da nossa história, que me deste quando parti?!

Queria poder olhar para esses lugares através do teu olhar e imaginar-nos de novo lá, recordar o cheiro do teu cabelo quando te encostas a mim no nosso miradouro preferido, a forma como mexes o café sem açúcar com o pau de canela naquela esplanada do miradouro com vistas para o rio, o teu sorriso rasgado quando caminhas a meu lado pelos jardins que tanto nos dizem e as pantominices de criança traquina que sempre fazes no coreto do jardim perto de tua casa, que tantas vezes nos serviu de refúgio e de lugar de confidências e enamoramentos um pelo outro.

Envia-me as fotografias o mais rápido possível, preciso de ti ao meu lado, mesmo que seja apenas através de uma ilusão de óptica criada em combinação com a química fotográfica e a ajuda sempre prestável das minhas memórias afectivas.

Até breve...

LY***

 

P.S. – Não te esqueças de fotografar o nosso coreto, miúda!

5 de Janeiro de 2009

Chamavam-lhe o príncipe dourado, não por pertencer a qualquer tipo de realeza ou andar coberto de ouro.

Não. O que acontecia é que tudo à sua volta brilhava quando estava presente. Diziam que era uma aura especial. Mas o que é isso de aura? Nunca consegui perceber.

Tinha no seu rosto de menino qualquer coisa de enigmático, misterioso. Talvez fosse do sorriso, indecifrável. Gostava de passear pela cidade, através do escuro da noite. Havia algo na luz do dia que o inquietava e não suportava o reboliço e a confusão das ruas apinhadas de rostos estranhos.

- foto -

4 de Janeiro de 2009

____________________________________________________________________________

Chamaste-me baixinho. Na sala grande, com o luar a iluminar as paredes escuras, a tua voz parecia-me uma canção de embalar. A luz que subia dos candelabros conferia um ambiente de catedral, de lugar sagrado, como se só ali se pudesse falar de algo tão sério como os sentimentos que tínhamos um pelo outro.

A tua voz sempre me provocara arrepios, mas agora, ao sussurrares-me ao ouvido, quase que me deixava levar embalada nos braços de Morfeu.

De repente, tudo mudou. A tua voz tinha agora um arrebatamento que nunca tinha sentido: um misto de paixão, dor, sofrimento. Quase que conseguia ouvir a tua consciência, confusa, cheia de dúvidas, desespero. Tentei acalmar-te, aconchegar-te nos meus braços. Mostrei-te o céu lá fora, disse-te que a seguir à noite escura outro dia nasceria e com ele também nós poderíamos renascer.

O teu olhar continuava confuso, os teus gestos bruscos, rápidos. Aprisionei-te de novo no meu colo, procurei transmitir-te a minha paz, o meu entusiasmo, a minha alegria. Adormeceste.

____________________________________________________________________________

9 de Julho de 2008

________________________________________________
Estávamos destinados a ser uma longa tarde de Verão... Mas até nos dias mais compridos o sol se põe, depois de beijar as amores quentes e cobrir as flores com o seu manto dourado.
Sobrou a tua sombra, que se colou à minha, transformando-a para sempre num fantasma que trago escondido nas gavetas da minha memória.
________________________________________________

20 de Junho de 2008


Trago-te num na garganta, num aperto no peito. A ausência dos teus olhos nos meus olhos revela um Eu distante, vazio...Talvez por me conheceres do avesso. Por veres em mim horas estendidos na areia, decifrando os mistérios da vida, e beijos com sabor a amoras nas tardes quentes de Verão. Encontras o que os outros nem procuram. Sabes-me de cor. Entendes cada gesto. Identificas cada expressão. Os silêncios entre nós sempre dizeram mais do que as palavras. Porque sempre foram verdadeiros, tão nossos e necessários como o cheiro a maresia que buscamos sempre que caminhamos para o mar.
Trago-te em cada grito contido, em cada gemido abafado. Procuro-te no poema ouvido ao cair da noite, na melodia que me chega trazida pelo vento, na tela que o pintor de rua transforma em paisagem.
Se pelo menos se pudessem vender os sentimentos...trocá-los por umas luvas que nos servissem melhor, numa dessas feiras da ladra onde se compram memórias e afectos de outras almas. Talvez te trocasse por um livro amarelado, de capa puída. Há qualquer coisa de eterno num livro sublinhado e anotado. Porque as palavras transformadas em impressões num papel ganham uma dimensão palpável e duradoura.
Ao contrário das que me disseste ao ouvido antes de desapareceres no horizonte. Essas, por mais sinceras que fossem, perderam-se por entre os dias e as noites em que chamo por ti.

10 de Março de 2008

_____________________________________________________________________
Talvez o tempo dos ponteiros do relógio marque o compasso da vida,
mas é através dos teus olhos que me guio e é no teu olhar que
vejo adiada a minha própria morte.
_____________________________________________________________________
"Por isso, nas horas mais tranquilas, entre as falésias, dedico-me a essa ocupação de recolher o que as marés trazem às praias, como se fosse ao coração."
- Francisco josé Viegas -

Arquivo do blogue